O efeito do Avô Materno

Em abril de 1977, um público recorde de 22.000 espectadores compareceram ao Kentucky’s Keenland Racecourse para ver uma égua chamada Sexetary, que corria no terceiro páreo. Ela nunca havia competido, mas era a favorita por uma razão: “seu pai”.

Era filha de Secretariat, o primeiro ganhador da Tríplice Coroa, e o maior puro-sangue de todos os tempos. A decepção foi grande quando ela terminou em quarto lugar.

Nos anos seguintes, os descendentes de Secretariat não se sobressaíram, e ainda que tivesse sido cruzado com as melhores éguas do mundo, nunca alcançou a mesma grandeza que ele possuía, como reprodutor. Também os seus filhos (machos) foram reprodutores excepcionais.

Ele morreu em 1989 e parecia que se acabava um importante capítulo, já que em sua descendência nenhum exemplar havia se destacado como ele. 

Pouco antes de sua morte, os criadores começaram a notar una tendência na descendência de suas filhas, inclusive aquelas que nunca haviam ganho uma corrida. Elas chegaram a ser e continuam sendo algumas das maiores éguas reprodutoras do mundo, produzindo puro-sangues ganhadores das mais importantes competições. O atletismo excepcional de Secretariat “vive” na Segunda geração de descendentes produzidos por suas filhas.

Através dos anos este fenômeno se popularizou tanto entre os criadores de cavalos de corrida, que quando se fala de um exemplar, sempre dão o nome de seus pais e do avô materno. 

Não houve uma explicação científica porque certas características saltam uma geração e eram passados só através das fêmeas. 

Em 1977 apareceu um artigo na revista Equus, número 242 onde há uma documentação da evidência científica do efeito do avô materno.

É hora de nós, criadores de cães, considerarmos este fenômeno.
 

Repassando Conceitos

Sabemos que cada célula do corpo do cão tem 39 pares de cromossomos, 50% de contribuição do pai e outros 50% de contribuição da mãe. Cada cromossomo tem milhares de genes que codificam para diferentes características, muitas das quais, nós podemos observar (cor dos olhos, pelagem, etc), que constituem o FENÓTIPO; o que nós não podemos ver, estão constituídos geneticamente e isto é o GENÓTIPO. Embora através do fenótipo e com conhecimentos básicos, podemos imaginar alguns genótipos.

Naquelas características onde intervêm apenas um par de genes e eles interagem na forma Dominante-Recessivo, é muito simples. Não é assim naquelas características que intervém muitos desses pares para uma só característica (poli-genes). E são justamente as que mais nos interessam, como:

- Angulações

- Cor da Pelagem

- Tamanho
 

Exceções Genéticas e o Efeito do Sexo

A teoria de Mendel estabelecia que o sexo de um gene dominante (pai ou mãe) não era aplicável para a determinação de qual gene era expressado, assim se a mãe aportava um gene dominante e o pai um recessivo, se expressava o dominante aportado pela fêmea e vice-versa.

Passaram-se mais de 100 anos até que o Dr. Allen em 1969, assombrou o mundo com um estudo que parecia indicar que certos genes poderiam estar relacionados ao sexo em sua expressão, e em 1986 o Dr. Surani, com suas experiências em rato, concluiu que “alguns genes” NÃO seguiam as leis de Mendel, embora estejam programados para serem “ativados” antes da fertilização, de maneira tal que sempre serão expressados por seus descendentes, ou “desativados” e nunca serão expressados.

O fator que determina se essa classe de genes é passada à descendência de forma “ativada” ou “desativada”, é o sexo dos doadores. 
 

Imprimindo (Imprinting) a Marca Genômica

Uma hipótese sustenta que existe um mecanismo pelo qual os machos e fêmeas podem controlar os RASGOS mais essenciais.
No desenvolvimento fetal por exemplo, a meta reprodutiva do macho é dar os maiores e mais vigorosos descendentes, mas a fêmea gerar um potro extremamente grande poderia ser mortal.
Talvez por esta razão, alguns genes críticos do desenvolvimento fetal são tornados inativos pela impressão (imprinting) paterno, permitindo aos genes da fêmea o completo controle sobre muitos aspectos do tamanho fetal. 
 

Salto de Gerações

A impressão (imprinting) genômico cria um padrão de referência cuja expressão é “saltar uma geração”.

Para entender isto, imaginemos um gene humano com impressão (imprinting) paterno que quando se expressa, gera descendentes com cabelo “azul”; quando este gene não se expressa, a cor do cabelo é marrom.

Um homem herda um gene do cabelo azul de sua mãe e portanto seu cabelo é azul. Como é varão, o gene de cabelo azul está “desativado” para transmiti-lo, de forma que seus filhos varões herdarão o gene de forma inativa, e todos terão cabelo marrom. Quando seus filhos varões se reproduzirem, esse gene permanecerá “inativo”, e todos os seus netos (varões e mulheres) terão o cabelo marrom. Mas quando as “filhas” deste homem acasalarem, o gene em sua forma “ativada” fará que todos os seus filhos (varões e mulheres) tenham o cabelo azul.

Resultado – A característica reaparece na terceira geração, mas somente com os descendentes da filha do homem de cabelo azul.
 

Dúvidas e Deduções

Muitas dúvidas restam deste fenômeno e a literatura ainda não nos dá respostas de como pode ocorrer. As deduções deste hallazgo vai além do mundo dos cavalos de corrida.

Já existe um número de genes humanos com impressão (imprinting), que tem sido mostrados.

Nós criadores de cães tendemos a ser impacientes, e nos desiludimos quando extraordinários machos não reproduzem imediatamente sua excelência; recordemos então o “efeito do avô materno” e esperemos uma geração. 
 

Fonte: Dr. Jorge E. Santoianni
Brinagar's Whippets
Publicado em Dobermann Express 3/2000